- 26/06/2026
- Dr. João Pedro
- Ortopedia Pediátrica
Instabilidade Patelofemoral em Crianças, Adolescentes e Adultos Jovens
Precisa de avaliação ortopédica para o seu filho? Entre em contato com o Dr. João Pedro Rocha, ortopedista pediátrico em São Paulo.
A instabilidade patelofemoral é uma das causas mais frequentes de dor e disfunção do joelho em crianças, adolescentes e adultos jovens. Ela ocorre quando a patela (rótula) perde sua relação normal com o sulco troclear do fêmur — a "pista" óssea por onde ela deveria deslizar — e passa a deslocar-se parcialmente (subluxação) ou totalmente (luxação) para fora do lugar.
A luxação patelar de primeira vez é mais comum do que muitos pais imaginam: estima-se uma incidência de 43 a 50 casos para cada 100 mil crianças por ano, com pico entre os 9 e os 14 anos e maior risco entre os 14 e os 18 anos. Em adolescentes, episódios de dor relacionada à articulação patelofemoral chegam a afetar cerca de 1 a cada 3 jovens ao longo de um ano.
É importante entender que essa condição existe em um espectro. Em uma extremidade estão crianças que sentem apenas uma sensação ocasional de "insegurança" ou "falseio" do joelho durante o esporte. Na outra, estão adolescentes com luxações recorrentes, que passam a ocorrer com cada vez menos esforço — às vezes em atividades simples do dia a dia, como subir escadas e até levantar da cadeira.
O que é a instabilidade patelofemoral?
A instabilidade patelofemoral não é um evento isolado, mas o resultado da perda do equilíbrio dinâmico entre as estruturas ósseas, ligamentares e musculares que mantêm a patela centralizada durante o movimento do joelho. Quando esse equilíbrio se rompe, a patela tende a deslocar-se para fora (lateralmente), gerando sintomas que vão da apreensão à luxação completa.
A população pediátrica é a que apresenta a maior incidência de instabilidade patelofemoral entre todas as faixas etárias. Isso acontece porque, nessa fase da vida, é comum a combinação de fatores anatômicos ainda em desenvolvimento — como o formato do sulco troclear e a posição da patela — com a alta demanda física de crianças e adolescentes ativos.
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Anatomia do joelho relacionada à estabilidade da patela
Para entender por que a patela "sai do lugar", é preciso conhecer as estruturas responsáveis por mantê-la estável durante os movimentos de flexão e extensão do joelho.
A patela e o sulco troclear (tróclea femoral)
A patela é o maior osso sesamoide do corpo humano e se articula com o sulco troclear, uma depressão em formato de "V" na parte anterior do fêmur. Esse sulco funciona como um trilho: quanto mais profundo e bem formado, maior a contenção óssea natural da patela durante o movimento. Quando esse sulco é raso, plano ou até convexo (como se fosse uma colina) — o que chamamos de displasia troclear — a patela perde grande parte dessa proteção óssea.
O Ligamento Patelofemoral Medial (LPFM) e o Ligamento Quadricipital-Femoral Medial (LQFM)
O Ligamento Patelofemoral Medial (LPFM) é o principal estabilizador estático da patela, atuando como um "freio" que impede seu deslocamento lateral, especialmente nos primeiros 30 graus de flexão do joelho. Ele liga a borda medial da patela a um ponto específico do fêmur (o chamado ponto de Schöttle). Em praticamente todos os casos de luxação patelar lateral, o LPFM se rompe — o que explica por que ele é o alvo principal da maioria das cirurgias de reconstrução.
Próximo ao LPFM, o Ligamento Quadricipital-Femoral Medial (LQFM) também contribui para a estabilização medial da patela, sobretudo quando o joelho está totalmente estendido. Em alguns casos, ambos precisam ser reconstruídos juntos.
O quadríceps e o Vasto Medial Oblíquo (VMO)
O músculo quadríceps (da coxa) é o grande extensor do joelho, e uma de suas porções — o Vasto Medial Oblíquo (VMO) — tem fibras orientadas de forma oblíqua, que tracionam a patela para dentro (medialmente). Esse músculo funciona como um estabilizador dinâmico, contrabalançando a tendência natural da patela de deslocar-se para fora. Fraqueza ou atrofia do VMO é comum em quem já sofreu episódios de instabilidade, criando um ciclo de fraqueza muscular e insegurança no joelho.
As cartilagens de crescimento (fises) em crianças e adolescentes
Em pacientes ainda em crescimento, as fises — as cartilagens de crescimento do fêmur e da tíbia — estão abertas. A fise distal do fêmur fica localizada muito próxima ao ponto anatômico onde o LPFM se insere, o que exige técnicas cirúrgicas específicas, capazes de tratar a instabilidade sem comprometer o crescimento da criança. Essa é uma das razões pelas quais o acompanhamento por um ortopedista pediátrico especializado faz tanta diferença nesses casos.
Quem tem mais risco de apresentar instabilidade patelofemoral?
Alguns grupos apresentam risco claramente maior de desenvolver instabilidade patelofemoral ou de ter novos episódios após o primeiro:
- Idade: o pico de incidência ocorre entre 9 e 14 anos, e adolescentes de 14 a 18 anos formam o grupo de maior risco para uma primeira luxação.
- Maturidade esquelética: crianças e adolescentes com fises (cartilagens de crescimento) ainda abertas têm de 1,79 a 2,72 vezes mais chance de apresentar uma nova luxação do que pacientes com o esqueleto já maduro.
- Esportes de risco: modalidades com mudanças rápidas de direção, giros, saltos e aterrissagens — futebol, basquete, vôlei, ginástica e dança, entre outras — concentram a maioria dos casos.
- Lateralidade: cerca de 10% dos pacientes que sofrem luxação em um joelho acabam desenvolvendo o mesmo problema no joelho oposto, e os casos bilaterais tendem a ter mais complicações.
- História familiar: ter parentes próximos com instabilidade patelar ou frouxidão articular aumenta a probabilidade de o problema também ocorrer na criança.
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Quais são as causas da instabilidade patelofemoral?
A instabilidade patelofemoral é multifatorial: combina um evento traumático — geralmente uma rotação do joelho com o pé fixo no chão, comum em mudanças de direção e saltos — com fatores anatômicos que predispõem à luxação. Mais de 80% das crianças e adolescentes com instabilidade patelofemoral apresentam pelo menos um desses fatores anatômicos de risco.
Lesão do Ligamento Patelofemoral Medial (LPFM)
Durante a luxação, a patela desloca-se para fora do sulco troclear e geralmente colide com o côndilo femoral lateral. Esse movimento praticamente sempre rompe o LPFM — na inserção femoral, na porção média do ligamento ou na inserção patelar. Como o LPFM é o principal "freio" medial da patela, sua lesão deixa o joelho mais vulnerável a novos episódios.
Displasia troclear
A displasia troclear é o desenvolvimento anormal do sulco troclear, que pode se apresentar raso, plano ou até convexo (em cume), oferecendo pouca ou nenhuma contenção óssea à patela. É o principal fator anatômico associado à instabilidade patelofemoral em crianças: está presente em cerca de 74% das crianças com luxação patelar primária, contra apenas 4% em crianças sem esse problema. A presença de displasia troclear aumenta o risco de nova luxação em 3,37 a 4,15 vezes.
Patela alta
Patela alta significa que a patela está posicionada mais "para cima" do que o normal em relação ao fêmur. Isso faz com que ela não se encaixe adequadamente no sulco troclear nos primeiros graus de flexão do joelho — justamente o momento em que a contenção óssea é mais importante. A patela alta está presente em cerca de 36% das crianças sem instabilidade e em proporção ainda maior entre as que já tiveram luxação, aumentando o risco de recidiva em até 2,38 vezes (e, em alguns estudos, em até 10,6 vezes).
Aumento da distância TT-TG
A distância TT-TG mede o desalinhamento entre a tuberosidade tibial — onde o tendão patelar se insere — e o sulco troclear. Quanto maior essa distância, maior a força que "puxa" a patela para fora durante a contração do quadríceps. Crianças com luxação patelar apresentam, em média, uma distância TT-TG de 13,9 mm, contra 9,8 mm em crianças sem o problema. Em adultos, valores a partir de 20 mm aumentam o risco de recidiva em 2,87 a 18,7 vezes.
Inclinação patelar lateral
A inclinação patelar lateral reflete um desequilíbrio entre as forças que tracionam a patela para dentro e para fora. Crianças com luxação apresentam, em média, uma inclinação de 21,1 graus, contra 8,5 graus em crianças sem instabilidade — e valores a partir de 20 graus têm forte associação com a luxação patelar.
Alterações no alinhamento do membro inferior: genu valgo, anteversão femoral e torção tibial
Três alterações de alinhamento são frequentemente encontradas em crianças com instabilidade patelofemoral:
- Genu valgo (joelhos para dentro, em "X" ou tesoura): aumenta o ângulo entre a força do quadríceps e o tendão patelar, lateralizando a tração sobre a patela.
- Anteversão femoral aumentada (rotação interna excessiva do fêmur, geralmente acima de 30 graus): também direciona a força patelar para fora.
- Torção tibial externa excessiva (acima de 35 graus): contribui para o desalinhamento entre a patela e o sulco troclear.
Essas alterações podem ocorrer isoladas ou combinadas, e seu diagnóstico costuma exigir avaliação rotacional detalhada — muitas vezes com exames de imagem específicos.
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Frouxidão ligamentar e fraqueza muscular
Crianças com frouxidão ligamentar generalizada (avaliada pela escala de Beighton) têm menor capacidade dos estabilizadores passivos de manter a patela no lugar. Da mesma forma, a fraqueza ou hipoplasia do Vasto Medial Oblíquo (VMO) e dos músculos abdutores do quadril favorece o chamado "valgo dinâmico" do joelho durante a corrida, o salto e a mudança de direção — aumentando ainda mais as forças que empurram a patela para fora.
Fatores de risco para uma nova luxação (recidiva)
A presença e o número de fatores anatômicos de risco mudam completamente o prognóstico de uma criança após a primeira luxação patelar:
- Sem fatores de risco anatômicos: taxa de recidiva entre 7,7% e 13,8%.
- Com 2 fatores de risco: taxa de recidiva entre 29,6% e 60,2%.
- Com 3 ou mais fatores de risco: taxa de recidiva entre 70,4% e 78,5%.
O que acontece quando a instabilidade patelofemoral não é tratada?
A história natural da instabilidade patelofemoral não tratada — ou tratada apenas com observação — tende a ser desfavorável, especialmente em crianças com fatores de risco anatômicos:
- A taxa de recidiva após o tratamento conservador varia de 15% a 44% em geral, podendo chegar a 50–60% em populações pediátricas com fatores de risco, e até 69% em crianças com displasia troclear.
- Cerca de 70% das crianças já apresentam alguma lesão da cartilagem (lesão osteocondral) no momento da primeira luxação.
- Em estudos de longo prazo, 100% dos pacientes apresentam algum grau de deterioração da cartilagem patelofemoral em média 8 anos após a primeira luxação, e metade desenvolve lesões cartilaginosas graves (grau 3–4).
- Esse processo pode evoluir para artrose patelofemoral precoce — ou seja, desgaste articular significativo já na adolescência ou no início da vida adulta.
Além do impacto físico, a instabilidade recorrente costuma trazer consequências funcionais e emocionais importantes: limitação para sociabilização e praticar esportes, dificuldade em atividades simples como subir escadas ou ficar sentado por muito tempo, atrofia do quadríceps e apreensão — o medo constante de que a patela "saia do lugar" novamente.
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Perguntas frequentes
O que é luxação patelar e como ela acontece?
A luxação patelar é o deslocamento completo da patela para fora do sulco troclear. Costuma ocorrer durante mudanças bruscas de direção, giros ou aterrissagens após saltos, quando o fêmur roda internamente sobre a tíbia com o pé fixo no solo e o joelho em leve flexão. Em crianças com fatores de risco anatômicos — como displasia troclear ou patela alta — a luxação pode acontecer com um trauma mínimo.
Existe risco de artrose no futuro após uma luxação da patela?
Sim. Mesmo uma única luxação já inicia um processo gradual de desgaste da cartilagem patelofemoral, que evolui ao longo dos anos. Por isso, o acompanhamento e o tratamento adequados — mesmo após o primeiro episódio — são importantes para reduzir o risco de novas luxações e preservar a articulação a longo prazo.
Existe alguma forma de prevenir a instabilidade patelofemoral?
A prevenção primária é limitada, já que muitos fatores de risco são anatômicos e não modificáveis, como a displasia troclear, a patela alta e a anteversão femoral. Ainda assim, o fortalecimento do quadríceps (em especial do Vasto Medial Oblíquo) e dos músculos abdutores do quadril, além do treino de padrões de movimento adequados, pode reduzir o risco em crianças com fatores predisponentes. Após uma primeira luxação, a prevenção secundária — fisioterapia adequada e, quando indicado, tratamento cirúrgico — é a estratégia mais eficaz para evitar recidivas e a progressão da lesão cartilaginosa.
Próximos passos
Entender as causas e os fatores de risco é o primeiro passo para tomar decisões bem informadas sobre o joelho do seu filho. Nas próximas páginas, você encontra como é feito o diagnóstico da instabilidade patelofemoral — incluindo exame físico e exames de imagem — e quais são as opções de tratamento, da fisioterapia à cirurgia preservadora e artroscópica do joelho.
Se seu filho já teve um episódio de luxação da patela, sente o joelho "falseando" durante o esporte ou apresenta dor anterior persistente, vale a pena agendar uma avaliação especializada em ortopedia pediátrica com o Dr João Pedro Rocha — focada em cirurgia preservadora e artroscopia do joelho e do quadril, da infância ao adulto jovem.
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Por que Consultar um Ortopedista Infantil em São Paulo?
Contar com um ortopedista infantil em São Paulo experiente é fundamental para indicar e realizar a artroscopia com NanoScope com segurança. O Dr. João Pedro Rocha, reconhecido ortopedista infantil em São Paulo, acompanha cada etapa da avaliação inicial à reabilitação pós-artroscopia com NanoScope ,garantindo crescimento saudável e função articular plena.
Dr. João Pedro Rocha
Ortopedista Infantil em São Paulo
Dr. João Pedro Ramos Sampaio Rocha é ortopedista especializado em ortopedia pediátrica e neuro-ortopedia. Formado pela Faculdade de Medicina da USP, completou residência em Ortopedia e Traumatologia no Hospital das Clínicas e especializou-se em ortopedia pediátrica e neuro-ortopedia na mesma instituição. Atua como médico assistente e preceptor no HSPM, assistente voluntário do grupo de ortopedia pediátrica do IOT-HC-FMUSP e opera em diversos hospitais de São Paulo. Fundador do Instituto Torus – Ortopedia Pediátrica Especializada. Suas áreas de expertise incluem pé torto congênito, displasia de quadril, paralisia cerebral, doença de Perthes e fraturas infantis. É membro da SBOT, SBOP e AOTrauma Internacional.
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